terça-feira, março 16, 2010

O dia em que o sol sorriu

Dez horas e trinta e sete minutos. Ele acorda. Aquele parecia ser mais um dia qualquer numa semana igualmente qualquer. Ainda sonolento e sentado em sua cama, o rapaz de cabelos cor de mel se pergunta – Eu sonhei hoje? – Entretanto, não consegue obter resposta alguma. Seus olhos volvem para a janela fechada e sem cortina, o que lhe permite examinar detidamente através dos vidros que o dia está com um brilho diferente. Vagarosamente, o rapaz de cueca samba-canção levanta-se e caminha em direção ao quintal. Observa o céu azul, sem nenhuma nuvem, iluminado por um sol tão carismático. O sol, o céu lhe provocavam uma estranha tristeza. – Por que não acordei mais cedo?
Trim-trim-trim.
Correu para atender ao telefone e, dessa vez era o tal telefonema que estava esperando há meses. Uma oportunidade! Nada poderia dar errado. Seria um fiasco fracassar pela nona vez. Confirma o encontro – Sim, perfeito, às dezesseis horas em frente ao teatro - Ele queria planejar tudo, mas não era fácil prever a reação de Ana. Deve ter algum motivo especial para esse sol carismático, ele pensou. Um convite à alegria!
O latido incessante das cachorras da casa ao lado, o funk no último volume tocando no bar da frente, os fiscais da vida alheia, nada, nada disso atrapalharia o estado de felicidade daquele jovem estudante de filosofia.
Quinze horas e cinqüenta e cinco minutos. Preso no engarrafamento. O surgimento das especulações foi imediato – Deve ter sido acidente com moto; é a obra que o governo está fazendo; blá-blá-blá...Ele abre a janela e depara-se novamente com aquele sol sorridente, um sol filosófico. As vozes dos passageiros transformaram-se em apenas vultos para os ouvidos do rapaz. Boceja, relaxa.
Algo muda quando Ana está presente. Uma timidez profunda o invade. Não conseguia manter um comportamento natural – ela é sublime, uma princesa, ele pensa – Tampouco sabia se ela percebia tal mudança. Lá estava ela. Linda. Vestido vermelho. Sapato preto. A intelectualidade de ambos quase sempre atrapalhava. Literatura, filosofia, política, economia marcavam presença em todas as conversas. Ana, no fundo, sabia que aquelas conversas eram um pretexto...Divertia-se com a falta de jeito do rapaz. Ele aproxima-se de Ana, não diz nada. Segura a mão esquerda da moça. Ela igualmente calada. Tímida. Mãos molhadas de suor. Ana prepara-se desajeitada para romper o silêncio – estava lendo Foucault – Xiiiiiii – o rapaz pede carinhosamente que ela não diga nada. Não precisava. Eles se aproximam lentamente e Biiiiiiiiiiiiii-biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
Buzina de ônibus não tem um som muito agradável. Ele acorda assustado. Ainda no engarrafamento, sentado dentro daquela merda de ônibus e mais blá-blá-blá.- batida de carro, só podia ser mulher; tão nova e tão bonita; Imagina a mãe quando souber-. Comentários imbecis. Impaciente, olha o relógio. Dezesseis horas e trinta e três minutos. O celular da Ana estava desligado.Um vendedor de balas entra no ônibus – um por cinqüenta centavos e 3 por "dois real" – não entendeu a promoção ou estava impaciente demais para fazer contas.- o que houve ali na rua? O motorista exercendo sua função de fiscal, perguntou ao vendedor. Foi uma batida, uma jovem morreu,disseram que trata-se da Ana, o vendedor respondeu.
No dia seguinte, o jovem estudante de filosofia chegou à capela Nossa Senhora das Moças, segurou as mãos de Ana. Não disse nada, simplesmente a beijou pela primeira e última vez.

6 comentários:

Felipe disse...

Poxa fe, matou a Ana ????

Robson Freire disse...

rs...

Entendi agora por que de você perguntar por três vezes "enfrente ao teatro? enfrente ao teatro? enfrente ao teatro?".rs

Foi bom Ana não ter ido no nosso encontro...rs

Adorei o texto me senti o rapaz da história...

bjo

Daniel Massa disse...

eu não gostei do rapaz. achei demasiado indie.
=P
beijo!

Alexandre disse...

Muito bom o texto, Fefe, mas tenho q concordar com o Daniel ( aqui de cima)q o rapaz é meio indie rs.bjo

Marlon Ribeiro disse...

uhhh..que triste!vc é uma menina feliz, tem que escrever coisas felizes para caras deprimidos como eu!kkk...

Desengavetados disse...

Ninguém aceita a morte de uma personagem no final da história.
Engraçado, lendo o seu texto quanta coincidência! Escrevi um conto muito parecido com este, o personagem era professor de filosofia tb...Bem as reações foram parecidas com as que li aqui.
O conto é meio antigo, escrevi no ano passado se chama "O catedrático".
Gostaria que vc lesse.
Enfim, me deve uma visita!
To esperando...

http://www.desengavetados.blogspot.com/

Beijos!

Andréa.